Em agosto de 2026, a 11ª turma do Mestrado Profissional em Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável da ESCAS | IPÊ passou duas semanas em uma imersão no Pontal do Paranapanema, no interior de São Paulo.
Foram dias de campo, aulas, conversas, caminhadas e uma convivência intensa entre 30 pessoas. Mas, acima de tudo, foram duas semanas para conhecer um território pela sua história e pelas pessoas que, de diferentes maneiras, fazem parte dela.
Para quem vem do Cerrado e já tem uma relação próxima com áreas naturais preservadas, estar dentro de um fragmento de Mata Atlântica foi, desde o começo, uma experiência especial. Aves, macacos, veados, antas e outros animais apareciam no cotidiano da turma. A biodiversidade estava ali, presente, sem precisar ser apresentada em uma fotografia ou em uma aula.
Mas havia algo mais importante acontecendo.
A floresta que a turma estava vendo era também aquilo que havia restado de uma paisagem muito maior.
Uma floresta, uma história
Conhecer o Parque Estadual Morro do Diabo e a história do Pontal ajuda a entender o que significa conservar um fragmento de Mata Atlântica no interior paulista.
A região passou por um intenso processo de ocupação e transformação da paisagem. A floresta foi derrubada, as terras foram disputadas e grandes propriedades passaram a fazer parte de uma realidade que também seria marcada, posteriormente, pela criação de assentamentos e pela chegada de milhares de famílias.
Nesse cenário, o Morro do Diabo permaneceu como um dos principais remanescentes de Mata Atlântica do interior de São Paulo. E sua importância vai muito além da área que aparece no mapa. É também um dos territórios fundamentais para a conservação do mico-leão-preto.
Foi nesse contexto que a história do IPÊ começou a se cruzar de maneira profunda com a história da região.
A conservação do mico levou a perguntas que continuam atuais: o que acontece quando uma espécie fica restrita a pequenos fragmentos? O que significa proteger uma população quando seu habitat está cercado por uma paisagem transformada? E como fazer conservação quando as áreas importantes para a biodiversidade também são territórios onde vivem e trabalham pessoas?
Quando a teoria ganha uma paisagem
Um dos conteúdos que mais marcou a turma foi a discussão sobre a teoria da biogeografia de ilhas, proposta por Robert MacArthur e Edward Wilson.
A ideia de que a fragmentação pode transformar áreas de habitat em verdadeiras “ilhas” dentro de uma paisagem modificada deixa de parecer uma abstração quando se observa o Pontal.
No caso do mico-leão-preto, a fragmentação interfere diretamente na dinâmica das populações. Por isso, conservar apenas os fragmentos que ainda existem não basta. É preciso pensar na conexão entre eles.
Essa busca pela conectividade está presente em iniciativas como os Corredores da Vida, que procuram criar condições para que a biodiversidade possa circular entre diferentes áreas de vegetação.
Também impressiona perceber como o monitoramento mudou ao longo do tempo. O que já foi acompanhado com anotações em cadernos de campo hoje conta com equipamentos, tecnologias e métodos muito mais sofisticados. A tecnologia mudou, mas a pergunta continua essencialmente a mesma: como garantir que essas populações permaneçam viáveis em uma paisagem fragmentada?
A conservação acontece dentro do território
Talvez essa seja uma das maiores contribuições da experiência do IPÊ para quem está começando ou aprofundando sua trajetória na conservação.
O território não é formado apenas por áreas de vegetação nativa.
Há propriedades rurais, assentamentos, estradas, comunidades, produtores, organizações, trabalhadores e diferentes interesses sobre a terra. Ignorar qualquer uma dessas dimensões torna muito mais difícil construir uma estratégia de conservação que consiga permanecer ao longo do tempo.
É nesse ponto que iniciativas como o Café com Floresta chamam atenção. A restauração passa a ser pensada junto com a produção e com a geração de renda, aproximando conservação e realidade econômica.
Essa lógica também aparece na própria cadeia da restauração que se desenvolveu na região. Viveiros, produção e comercialização de mudas e projetos de recuperação ambiental passaram a envolver dezenas de famílias.
É uma mudança importante de perspectiva. A restauração deixa de ser apenas uma atividade necessária para recuperar uma área degradada e passa também a gerar trabalho, renda e novas relações econômicas no território.
Pessoas que fazem a diferença
Há uma dimensão dessa história que não cabe em mapas, indicadores ou projetos: as trajetórias pessoais de quem decidiu dedicar a própria vida à conservação.
É incontornável falar de Cláudio e Suzana Pádua, cidadãos visionários que fundaram o IPÊ e ajudaram a construir, ao longo de décadas, uma instituição que atua em diferentes frentes, da conservação e recuperação de habitats à educação ambiental, pesquisa, formação e articulação com os territórios.
Conhecer um pouco dessa trajetória durante a imersão foi também perceber que instituições como o IPÊ não surgem prontas. São construídas por pessoas que escolhem se comprometer, insistem, aprendem, mudam de estratégia quando necessário e continuam trabalhando mesmo quando os resultados levam anos para aparecer.
Há algo particularmente bonito na forma como Cláudio e Suzana falam sobre conservação. Uma combinação difícil de explicar entre convicção, conhecimento e ternura. Não parece apenas uma postura profissional. É algo que o tempo de dedicação parece ter incorporado à maneira de olhar para as pessoas, para os animais e para os lugares.
São pessoas que se comprometeram com uma causa e fizeram diferença. E continuam fazendo.
Isso também ajuda a compreender por que a história do IPÊ é tão marcada por encontros. A conservação foi sendo construída junto com pesquisadores, comunidades, proprietários rurais, educadores, produtores, organizações e tantas outras pessoas que, em algum momento, encontraram nessa trajetória um lugar para contribuir.
No fim, talvez seja essa uma das coisas mais inspiradoras de uma experiência como essa: perceber que grandes transformações ambientais também são feitas de trajetórias muito particulares.
O que a Mata Atlântica pode ensinar ao Cerrado?
É impossível passar duas semanas no Pontal sem fazer comparações com outros territórios.
Para quem vive e trabalha próximo do Cerrado e olha cada vez mais para as transições com a Amazônia, a história da Mata Atlântica traz um alerta bastante concreto.
O Brasil ainda possui áreas extensas de vegetação nativa, unidades de conservação, terras indígenas, territórios quilombolas e outras áreas protegidas. Mas a fragmentação já está acontecendo em diferentes partes do país.
A história da Mata Atlântica mostra o que pode acontecer quando a perda de habitat avança por tempo suficiente.
E deixa uma pergunta incômoda: quanto precisa ser perdido para que uma paisagem deixe de funcionar como antes?
Essa questão também aparece quando se olha para a legislação ambiental. Um percentual permitido de supressão de vegetação pode ser juridicamente definido, mas isso não significa que aquele mesmo percentual represente um limite ecológico seguro para todas as paisagens, espécies e processos.
A ecologia não necessariamente cabe nos limites estabelecidos por uma tabela.
Aquilo que ainda nem conhecemos
Outro aprendizado atravessou boa parte das conversas durante a imersão: a dimensão daquilo que se perde antes mesmo de ser conhecido.
Biodiversidade não significa apenas árvores, grandes mamíferos ou carbono armazenado.
Há fungos, insetos, microrganismos, plantas, frutos, sementes, fibras, óleos e uma enorme quantidade de relações ecológicas que ainda não são completamente compreendidas.
Há também aquilo que interessa diretamente às sociedades humanas: alimentos, princípios ativos, materiais, conhecimentos tradicionais e possibilidades econômicas que podem sequer ter sido descobertas.
Essa discussão aproxima conservação e bioeconomia de uma maneira muito concreta.
Quando uma área de vegetação é destruída, portanto, a perda não pode ser medida apenas pela quantidade de carbono que deixou de ser armazenada. Existe também tudo aquilo que deixa de existir, de ser estudado e, eventualmente, de gerar benefícios para as pessoas.
Olhar a paisagem
Subir o Morro do Diabo e simplesmente admirar a paisagem já seria, por si só, uma experiência maravilhosa. Mas, por ser uma das últimas atividades da imersão, aquela vista chegava depois de duas semanas de histórias, conversas, caminhadas e aprendizados sobre o território.
De cima, as camadas começavam a se juntar. Já não era apenas um fragmento de cerca de 30 mil hectares de floresta preservada. Era habitat, fauna, água, carbono, ar, pesquisa, restauração, trabalho, conflitos, famílias, escolhas e décadas de esforços para que aquela paisagem continuasse existindo.
Uma experiência como essa confronta uma ideia ainda muito presente no debate sobre desenvolvimento: a de que floresta é “mato”, conservação é impedimento e proteger a natureza significa colocar o território contra o progresso. O Pontal demonstra que essa leitura é curta demais para explicar a realidade.
A floresta não estava fora da vida daquele território. Estava no centro de muitas das relações que o sustentam. A biodiversidade, a água, a produção, a pesquisa, a restauração, a geração de renda e as próprias possibilidades de futuro se relacionavam com aquela paisagem.
O exercício final da imersão foi, portanto, também um exercício de olhar. Olhar para uma floresta e enxergar mais do que aquilo que está imediatamente diante dos olhos. Reconhecer a complexidade que existe por trás de uma área preservada e perceber como discursos simplistas podem apagar justamente aquilo que uma paisagem como aquela tem de mais importante: a relação entre natureza, pessoas e território.
Aprender antes de repetir
A experiência não deixa uma receita pronta para o Cerrado ou para a Amazônia. E talvez essa seja justamente uma de suas maiores riquezas.
O IPÊ construiu sua trajetória ao longo de décadas, testando caminhos, formando parcerias, acumulando conhecimento e aprendendo com as próprias experiências. O desafio de uma nova geração de profissionais não é simplesmente copiar esse percurso, mas entender o que pode ser aprendido com ele.
Para quem está construindo uma trajetória de conservação no Tocantins, essa diferença é importante.
O Cerrado tem sua própria história, suas comunidades, seus ciclos, suas espécies e seus conflitos. A Amazônia também. Os caminhos precisam nascer desses territórios.
As duas semanas no Pontal terminaram, portanto, com mais perguntas do que respostas. E isso talvez seja um bom resultado para uma experiência de imersão.
Ficou a inspiração de uma instituição que passou décadas transformando conhecimento científico em ação, criando pontes entre biodiversidade e pessoas, e mostrando que conservação pode ser construída dentro dos territórios, e não à margem deles.
Assim como na Mata Atlântica, nos demais biomas como Cerrado e nas transições com a Amazônia, ainda há muito a conservar. E ainda há tempo para aprender com aquilo que já aconteceu e desenhar trajetórias diferentes.